A empresa que presta serviços em Xanxerê tem uma frota de 14 ônibus. Nenhum está adaptado para cadeirantes
A limitação para um cadeirante é enorme. Eles circulam pela cidade, andam pelas ruas e calçadas. Hoje, estas com vias rebaixadas para facilitar o acesso. Fazem suas tarefas de acordo com as possibilidades. Eles vivem a vida e, geralmente, detestam depender dos outros. A inclusão os torna mais ativos. Mas, e quando precisam utilizar o transporte coletivo para sua locomoção. O que fazem?
A resposta fomos buscar com vários cadeirantes que sentem no dia a dia as dificuldades de não ter em Xanxerê um ônibus adaptado com a plataforma hidráulica. Muitos deles moram em diversos bairros distantes do centro. Para José Alberto Zanotto, que mora no Bairro Matinho, a dificuldade era tremenda. Quando não tinha seu carro adaptado era preciso pedir favores, encontrar motorista ou pagar táxi para que chegasse até o centro. “Às vezes, também, eu vinha com o transporte da FCDX. Por que se usar o ônibus, tem que ter umas quatro pessoas para ajudar a desmontar a cadeira e colocar dentro do ônibus porque não tem a plataforma”, conta
Eles também são cadeirantes, moram em bairros distantes do centro e, toda vez que precisam se deslocar, necessitam de ajuda. Fábio Maraskin tem 28 anos, mora no Bairro João Winckler e sentiu na pele a falta do transporte coletivo com adaptação.
Ele conta que, quando trabalhava em um supermercado, no centro, precisou adaptar uma moto, se tornando um triciclo. “Eu ia assim para o serviço, descia toda a avenida e, há seis anos, quando estava na avenida, percebi que o pneu da frente estava vazio. Fui mais devagar para observar o que poderia ter acontecido. De repente, uma caminhonete aparece e arrasta o triciclo e saiu me arrastando. A sorte é que eu cai do lado, se não eu ficaria embaixo do carro”, relata o drama. No acidente, Fabio teve graves fraturas, que até hoje tenta se recuperar.
Ele garante que, se tivesse transporte coletivo adaptado, certamente não teria ocorrido o acidente. “A gente sempre fica na dependência de alguém, para colocar no carro, para levar a tal lugar. Tenho certeza que se já tivesse o ônibus, (que na minha opinião já deveria ter há muito tempo, passou da hora inclusive) eu não teria me acidentado. Porque eu precisei fazer o meu triciclo porque não tinha como eu ir ao trabalho”, reforça o rapaz e comenta ainda que por inúmeras vezes tentou usar o transporte coletivo, mas foi uma labuta. “É bem complicado. As portas são apertadas, não tem lugar específico para a gente ficar dentro do ônibus, as pessoas me tiraram da cadeira, fecharam a cadeira, me colocaram dentro do ônibus e sabe que tem pessoas e motorista que até ajudam, outros não estão nem aí”, encerra Fabio garantindo que já está mais do que na hora de Xanxerê oferecer aos cadeirantes ônibus com adaptação.
Maiara: “Já perdi oportunidade de emprego pela falta de ônibus adaptado”
Ela estuda, está no último ano do ensino médio e para chegar até a Escola Costa e Silva utiliza o transporte da prefeitura (uma Kombi adaptada). Para Maiara Dall’Acqua, a grande e principal dificuldade da falta de ônibus adaptado em Xanxerê é a dependência. “Se precisa trabalhar, ou não vai poder ou vai com a cadeira mesmo, porque não tem um ponto para pegar ônibus com adaptação. Desde que eu comecei a estudar não me lembro e não vi nenhum ônibus e, como cadeirante, a gente se sente excluído, porque querendo ou não, queremos ter uma vida independente, minha mãe vai estar sempre comigo, eu preciso ter minha vida, preciso ter meu ganho”, desabafa a menina, que fez 18 anos no último sábado e está cheia de sonhos. “Eu quero muito trabalhar. Já recebi três ou quatro propostas de emprego só que não pude aceitar pelo fato de não ter adaptação nos ônibus em Xanxerê. Hoje eu tenho uma cadeira de rodas motorizada, mas quando chove não posso usar, porque se molhar, estraga todo o sistema, que é movido à bateria. Eu também quero, se Deus quiser, começar faculdade de direito e quero ser promotora da área criminal”, relata Maiara.
Algumas vezes, Maiara tentou utilizar o ônibus coletivo, mas não conseguiu. “As portas são apertadas e a minha cadeira normal já está velha, ela não fecha mais e ainda que estou há anos na fila para tentar outra cadeira, mas ainda não veio nada, porque eu preciso de uma cadeira melhor para sair, porque a motorizada não posso sair em dia de chuva”, conta ela que reafirma a opinião de seu colega Fábio: “Já passou da hora mesmo de ter transporte coletivo adaptado em Xanxerê. Sei que em Chapecó já tem ônibus adaptado e que a empresa que de lá é a mesma que faz o serviço aqui. Então, porque ainda estamos sem?”, questiona a menina.
Acessibilidade está em decreto
Em 2004, o presidente Lula regulamentou a lei que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida.
O Capítulo V (dá acessibilidade aos Serviços de Transportes Coletivos), Seção II (dá Acessibilidade no Transporte Coletivo Rodoviário) consta, no artigo 38 que: “No prazo de até 24 meses, a contar da data de edição das normas técnicas referidas no § 1o, todos os modelos e marcas de veículos de transporte coletivo rodoviário para utilização no País, serão fabricados acessíveis e estarão disponíveis para integrar a frota operante, de forma a garantir o seu uso por pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida”.
Já o artigo 39, da mesma seção, consta: “No prazo de até 24 meses, a contar da data de implementação dos programas de avaliação de conformidade descritos no § 3o, as empresas concessionárias e permissionárias dos serviços de transporte coletivo rodoviário deverão garantir a acessibilidade da frota de veículos em circulação, inclusive de seus equipamentos”.
Empresa busca adequações
A direção da Auto Viação Xanxerê, empresa responsável pelo transporte urbano no município, tem conhecimento dessas necessidades, mas esclarece que nenhum cadeirante faz o uso dos ônibus.
De acordo com o gerente operacional da empresa, Idemar Frese, é frequente, sim, a utilização de pessoas com deficiência visual, auditiva e algumas físicas. “Não tivemos procura de nenhum cadeirante nos informando que utiliza nossos ônibus. Os cadeirantes geralmente quem faz o transporte é a Apae”, comenta o gerente.
Hoje, a Auto Viação Xanxerê possui 14 ônibus em sua frota e, segundo Idemar, já tem sido feito uma cotação de preços dos equipamentos necessários para a instalação de rampas de acessos no veículo, para atender aos portadores de necessidade especial, principalmente os cadeirantes.